Outubro, 2020 — A pandemia originada pelo novo corona vírus veio assombrar o ano de 2019, francamente positivo no que respeita ao crescimento de volume nas fusões e aquisições, e minar as expectativas de um 2020 ainda mais mexido.
A imprevisibilidade futura relativa aos verdadeiros impactos desta crise fez-se sentir desde cedo, tendo deitado por terra vários negócios que vinham a ser preparados e equacionados. O medo incutido nos investidores pelos efeitos da pandemia e o facto de muitas empresas se terem focado na necessidade de recuperação e de lidar com essa ameaça, fez abrandar o ritmo neste sector. No entanto, e como em qualquer outro momento da história marcado por crises, estas vêm disromper o mercado e o tecido empresarial, assinalando assim esse momento, como um de oportunidade para a indústria de fusões e aquisições. A curto prazo, a partir da segunda metade do ano de 2020, é esperado que as transações de M&A liderem e imprimam ritmo na fase da recuperação de pandemia. Assim, seja através de uma estratégia defensiva que vise proteger e acautelar o futuro da empresa, ou através de uma estratégia ofensiva que vise estimular o crescimento e despertar uma transformação do modelo de negócio, é esperado um retomar sério da atividade de fusões e aquisições. Paralelamente, assistiremos também a restruturações e aumentos de capital como soluções-chave para salvar os negócios que a pandemia pôs em risco. Deste modo, e apesar de todos os efeitos negativos e devastadores na economia e sociedade provocados pela Covid-19, acreditamos que o universo M&A irá registar uma rápida e exponencial recuperação.
No entanto, no presente, merece a ressalva e análise do impacto do novo corona vírus no core das fusões e aquisições, seja no seu impacto na realização de due diligence, seja através da gestão de expectativas e incerteza futura. No universo das diligências prévias, será necessário um ajustamento do risco com uma estratégia considerativa dos efeitos da pandemia, incluindo o risco de futuras infeções ou em casos mais extremos de colapso de setores. Também, será necessário estar ao corrente dos apoios estatais pois estes podem mitigar o efeito da pandemia na saúde das empresas e setores.
Relativamente, à gestão das expectativas e incertezas é tudo muito mais subjetivo e difícil de mensurar, pois depende muito do otimismo dos investidores e governos, mas a tendência genérica de evitar arriscar grandes operações devido à incerteza futura é a que mais impera.
Além desta análise, parece-nos ser premente uma abordagem global ao impacto da Covid-19 nas fusões e aquisições em sectores chave da economia.
Começando pelo sector das energias renováveis (renewables sector) que historicamente é considerado um sector dinâmico e focado no futuro, o impacto da Covid-19, na perspetiva das fusões e aquisições será diminuto quando comparado com o sector tradicional da eletricidade (power market). Muito devido ao facto do sector das renováveis, independentemente das crises, ser um sector resiliente e ter um perfil de investimento de baixo risco, isto torna-o bastante atrativo nesta época de incertezas e, portanto, é esperado que mantenha o seu dinamismo negocial neste período.
Realidade completamente diferente é o sector da aviação, que foi dos mais afetados nesta pandemia. Estima-se que entre o último trimestre de 2019 e o primeiro de 2020 o global deal value no sector da aviação tenha sido 66% menor. Com as fusões e aquisições no fundo da lista das prioridades das empresas de aviação no presente, é certo também, que será o M&A à semelhança do que aconteceu nas outras crises que afetaram a aviação, que irá protagonizar um papel relevante na restruturação do sector. Com a International Air Transport Association (IATA) a antever a necessidade de uma injeção de 200 biliões de dólares para salvar a indústria da aviação, e sabendo que tanto governos como os mercados já foram forçados a financiar muitas destas empresas em dificuldades, é óbvio que uma grande parte dessa quantia em falta terá de provir de equity funds e será nesse momento que o M&A entrará como uma parte relevante da solução para salvar este sector.
Também o turismo à semelhança do que aconteceu com a aviação, foi dos sectores mais afetados pela pandemia. No entanto, e como já pudemos perceber as fusões e aquisições prosperam em sectores atormentados. Assim, devido ao impacto brutal da pandemia na indústria hoteleira, muitas empresas hoteleiras serão impelidas a fundir-se e a vender a empresas maiores, rumando-se para uma consolidação do sector. Apesar de em fevereiro de 2020 para março do mesmo ano o número de M&A deals mundialmente ter diminuído de 2349 (representando 151.2 biliões de dólares) para 1984 (representando 129.9 biliões de dólares), é esperada uma agitação futura e um aumento de transações a curto-médio prazo devido às empresas em sérias dificuldades que serão obrigadas a vender ou restruturar.